quarta-feira, 25 de julho de 2018

Botões Excedentes

Esse tal número 30 estava me assustando um pouco desde que chegou. Mas hoje, depois de reler uma bobagem escrita há alguns anos, senti na pele o clichê de que o tempo pode mesmo nos fazer muito bem. Os botões excedentes persistem (ainda bem!), mas convivem bem com as oscilações de tensões, entendendo que alguns curtos-circuitos são necessários para mudanças positivas indispensáveis ao interminável crescimento. Com esses "estranhos" 30 anos, a cabeça já pode ser virada para todos os lados, sem precisar ser segurada pela mão direita. A imagem desenhada se tornou igual à imagem do espelho. E o desenho passa a ser dispensado para os constantes ajustes de contorno.
...

Os botões excedentes
Andava com passos mais rápidos e com a mão direita segurava a cabeça.
Segurava-a para não permitir que os olhos tivessem uma visão ampla. Sabia que não resistiria à grande tentação de olhar para os lados e para trás.
Forçou-se àquela maneira estranha de andar, já que a caminhada havia sido, até aquele momento, cheia de tropeços por não olhar para si e para frente. O menor atrativo era suficiente para que o olhar se desviasse do objetivo ou ocorresse o nascimento de uma nova indecisão.
A mão esquerda ficava livre e talvez seja por esse motivo que as pontas de seus dedos desenvolveram uma sensibilidade mais aguçada. Precisava compensar a ausência da direita.
E tudo porque nascera com botões a mais, o que era diferente de nascer com um parafuso a menos, mas nem por isso mais vantajoso.
Se ao menos os botões lhe proporcionassem maior inteligência! Não! Se fosse mais inteligente certamente atingiria um bom nível de autocompreensão de maneira mais fácil.
Os botões lhe causavam tantas alegrias quanto intensas tempestades, principalmente quando aparecia alguém cheio de dedos e apertava vários deles ao mesmo tempo. Era uma confusão para conseguir desligar tudo.
Certa vez, chegou em casa decidida. Parou diante do espelho e tudo o que via era uma imagem desagradável e perturbadora, destoante da que era vista pelos outros. Queria um novo retrato, uma mistura do que já era com quem realmente queria ser. No entanto, aquela figura estava assustadoramente presa no espelho.
Foi então que, num ato de desespero, com vários botões ligados ao mesmo tempo, arrancou o espelho da parede e atirou-o pela janela, com a certeza de que se estilhaçaria sem condições de reconstituição. E, na parede então vazia, começou a fazer um desenho, mesmo sabendo que corria um grande risco confiando sua imagem à mão esquerda, com pontas de dedos demasiado sensíveis.
Entrou em contato com o além. (O além que tinha por dentro.) E, da melhor forma que pôde, exteriorizou-o para manter sua essência. Mudou apenas os contornos, que passa a buscar diariamente, a fim de que chegue o dia em que seja uma mistura de sua essência com o que decidiu ser.

Nenhum comentário:

Postar um comentário