Sobre a dissertação de mestrado do amigo Gustavo Tanus Martins:
Adorei a dissertação e estou ansiosa para ler a tese. Já havia lido sobre a morte sob o enfoque religioso ou puramente filosófico, mas essa foi a primeira vez em que pude ter contato com uma abordagem desse tema sob a perspectiva da Educação, da formação do ser humano.
O texto me ensinou muito, além de me intrigar, de me fazer refletir. Ensinar e ao mesmo tempo estimular a reflexão, ao invés de apenas apresentar pensamentos já formados por grandes nomes é uma das características que fazem do Gustavo um verdadeiro educador, alguém que realmente quer contribuir para a formação de seres humanos livres e não meros repetidores impensantes.
Eu que quando pequena queria ser uma versão feminina infanto-juvenil do Highlander, tendo o Queen como trilha sonora da minha vida infinita, hoje percebo que o envelhecimento e a aproximação do “fim” é um alimento vital. Como se já não fôssemos suficientemente contraditórios, saber que não temos todo o tempo do mundo nos entristece ao mesmo passo em que nos motiva a viver. “Who wants to live forever?”
E se essa finitude (ao menos da condição humana atual) é tão necessária para que busquemos mais sentidos para viver, se ela é tão inerente a nosso estado de ser humano vivo, porque o tema nem sempre é abordado com mais naturalidade com as crianças?
Talvez seja porque, mesmo com a maturidade, este fato da vida não deixa de ser doloroso e delicado. Talvez seja uma tentativa de poupar nossas crianças de um sofrimento maior.
Mas, anos depois, um adulto pode pensar: porque não foram me contando aos poucos, na medida em que eu crescia, ao invés de me dizerem que aquela pessoa da minha família que morreu virou uma estrelinha no céu? Confundiram-me tanto para depois a vida me ensinar que, seja religioso ou ateu, ninguém vira uma estrelinha no céu. Ensinam-me uma mentira sobre a única certeza que terei em vida. Ao crescer, no entanto, foi possível perceber que a morte é bem mais triste do que eu imaginava, mas que, por algum motivo, eu preciso saber que o “fim” existe para dar mais valor à vida. Se tivessem me explicado sobre a morte aos pouquinhos, na medida em que eu crescia, não apenas sob a ótica religiosa, isso não destruiria meus sonhos, nem atrapalharia minha imaginação, nem tiraria o encanto dos contos de fada. Apenas me ajudaria a começar mais cedo e dentro das possibilidades do meu cérebro ainda infantil a viver um dos grandes dramas da vida: o de saber que um dia vou morrer e que mais triste do que isso é ter a possibilidade de perder alguém que amo. Ensinaram-me tanta coisa, mas não introduziram a morte de forma clara na minha vida. Apertavam minha bochecha toda vez que eu fazia um comentário criativo, demonstrando meu senso de imaginação sem limites, mas não me permitiram criar desde cedo minhas próprias versões sobre a morte. O assunto parecia apavorar ainda mais os adultos do que quando eu perguntava de onde vinham os bebês e, então, limitavam-se a me contar uma mentira, já que lhes parecia mais difícil explicar o pouco que sabiam ou imaginavam sobre a morte.
Tenha quais sentidos a vida para cada pessoa, eles parecem ganhar mais força porque se sabe da sua finitude. Se tenho despertada a vontade de viver “como se não houvesse amanhã” ou “viver cada dia como se fosse o último” e de dar tanto valor para a vida é porque sei que um dia vou morrer.
A morte passa, portanto, a ter um papel importantíssimo, sendo uma das criadoras do meu combustível vital. Independentemente da religião, na vida humana, ou ao menos nesta vida atual, ou ainda que nada mais aconteça depois que eu morrer, a morte deixa de ser o “fim da linha” para ser uma das grandes impulsionadoras de nossas trajetórias.
Seja qual for o sentido da nossa existência, mais uma vez o amor se mostra necessário como o grande fator inspirador da vida. E como o ser humano já é cheio de contradições, parece que teremos que viver com mais esta: amar a ideia da morte, por mais que ela nos traga sofrimento, pois ela nos ajuda a amar a vida!