quarta-feira, 25 de julho de 2018

Carta da sua Coisa-Interior-Gritante

Estava presa no seu estômago até ontem. Só não fui digerida e evacuada por causa do cordão. É, o cordão. Aquele mesmo, o do umbigo. Pensou o que? Ele foi cortado só pelo lado de fora com sua mãe. Aqui dentro ainda existe. E me prende a você. Mas longe de mim querer ser sua filha pro lado de dentro. Eu sou de outra espécie. Não sei porque me colocaram pra viver aqui dentro. Foi você que me colocou aqui? Com certeza, não... 
A propósito, foi só por causa do cordão que não fugi. Houve momentos em que preferi ser evacuada, já que não conseguia voltar pro meu lugar. Mas seu umbigo me segurou.
Sem forças pra voltar pro meu lugar, revirei-me, pulei, debati-me. Desculpe-me! Provavelmente é por isso que você teve enjoos, azia, suspeita de gastrite...
Você precisa me deixar viver direito. Chega. Cansei. Não aguento mais. Quero voltar pro meu lugar. Há muito tempo estou aqui, afônica. Minha única solução foi escrever. Deve ser defeito desse seu corpo. Essa sua espécie só deixa minha voz sair quando estou aí em cima.
Consegui pegar carona num impulso (há muito tempo não passava algum por aqui). Estava quase chegando, mas fiquei entalada entre a laringe e a faringe. Que lugar horrível... se pelo menos eu pudesse interferir nos sons que você emite! Mas daqui não consigo nada. Preciso subir. Tire-me daqui. Fiquei tempo demais fora do meu lugar. Estou entalada e posso obstruir suas vias respiratórias caso não me leve logo pra cima.
Se me fizer voltar, prometo... vou gritar um pouco mais baixo!

Desesperadamente,
Sua Coisa.

Chama

Ele para. Protege a chama do vento.
É o que precisa fazer na maioria dos dias.
Em outros, mais inspiradores, corre – sem “fazer” muito vento, e como é difícil! – e a alimenta. Tenta buscar dentro de si uma fonte. Quando não consegue, abre um livro do Pessoa, porque assim se esquece de sua pequenez, pensando se encontrar em alguma das pessoas do Grande. Isso acende uma nova faísca, que aumenta a chama.
Eis que chegam dias de sopros fortes. Então ele para novamente. Permite que apenas uma porção ideal de vento atinja a chama, que quase some, depois volta, mais forte.
Faz dos sonhos seus alimentadores de chama nos dias em que a inspiração é fraca.
Transforma o melhor que vive em poesia e o resto que lhe é possível, em simples poção-fortalecedora-de-luz. E do que assim não pode fazer, abandona.

Botões Excedentes

Esse tal número 30 estava me assustando um pouco desde que chegou. Mas hoje, depois de reler uma bobagem escrita há alguns anos, senti na pele o clichê de que o tempo pode mesmo nos fazer muito bem. Os botões excedentes persistem (ainda bem!), mas convivem bem com as oscilações de tensões, entendendo que alguns curtos-circuitos são necessários para mudanças positivas indispensáveis ao interminável crescimento. Com esses "estranhos" 30 anos, a cabeça já pode ser virada para todos os lados, sem precisar ser segurada pela mão direita. A imagem desenhada se tornou igual à imagem do espelho. E o desenho passa a ser dispensado para os constantes ajustes de contorno.
...

Os botões excedentes
Andava com passos mais rápidos e com a mão direita segurava a cabeça.
Segurava-a para não permitir que os olhos tivessem uma visão ampla. Sabia que não resistiria à grande tentação de olhar para os lados e para trás.
Forçou-se àquela maneira estranha de andar, já que a caminhada havia sido, até aquele momento, cheia de tropeços por não olhar para si e para frente. O menor atrativo era suficiente para que o olhar se desviasse do objetivo ou ocorresse o nascimento de uma nova indecisão.
A mão esquerda ficava livre e talvez seja por esse motivo que as pontas de seus dedos desenvolveram uma sensibilidade mais aguçada. Precisava compensar a ausência da direita.
E tudo porque nascera com botões a mais, o que era diferente de nascer com um parafuso a menos, mas nem por isso mais vantajoso.
Se ao menos os botões lhe proporcionassem maior inteligência! Não! Se fosse mais inteligente certamente atingiria um bom nível de autocompreensão de maneira mais fácil.
Os botões lhe causavam tantas alegrias quanto intensas tempestades, principalmente quando aparecia alguém cheio de dedos e apertava vários deles ao mesmo tempo. Era uma confusão para conseguir desligar tudo.
Certa vez, chegou em casa decidida. Parou diante do espelho e tudo o que via era uma imagem desagradável e perturbadora, destoante da que era vista pelos outros. Queria um novo retrato, uma mistura do que já era com quem realmente queria ser. No entanto, aquela figura estava assustadoramente presa no espelho.
Foi então que, num ato de desespero, com vários botões ligados ao mesmo tempo, arrancou o espelho da parede e atirou-o pela janela, com a certeza de que se estilhaçaria sem condições de reconstituição. E, na parede então vazia, começou a fazer um desenho, mesmo sabendo que corria um grande risco confiando sua imagem à mão esquerda, com pontas de dedos demasiado sensíveis.
Entrou em contato com o além. (O além que tinha por dentro.) E, da melhor forma que pôde, exteriorizou-o para manter sua essência. Mudou apenas os contornos, que passa a buscar diariamente, a fim de que chegue o dia em que seja uma mistura de sua essência com o que decidiu ser.

Arco-íris

Que a luz da essência escape pelos poros!
Que cada superfície, brilhando a cor de sua essência, aproxime-se das demais para formarem arco-íris.
E que todas juntas percebam que o pote de ouro nunca é alcançado, porque o tesouro é a própria união das cores.


Sobre a dissertação de mestrado do amigo Gustavo Tanus Martins:



Adorei a dissertação e estou ansiosa para ler a tese. Já havia lido sobre a morte sob o enfoque religioso ou puramente filosófico, mas essa foi a primeira vez em que pude ter contato com uma abordagem desse tema sob a perspectiva da Educação, da formação do ser humano. 
O texto me ensinou muito, além de me intrigar, de me fazer refletir. Ensinar e ao mesmo tempo estimular a reflexão, ao invés de apenas apresentar pensamentos já formados por grandes nomes é uma das características que fazem do Gustavo um verdadeiro educador, alguém que realmente quer contribuir para a formação de seres humanos livres e não meros repetidores impensantes.
Eu que quando pequena queria ser uma versão feminina infanto-juvenil do Highlander, tendo o Queen como trilha sonora da minha vida infinita, hoje percebo que o envelhecimento e a aproximação do “fim” é um alimento vital. Como se já não fôssemos suficientemente contraditórios, saber que não temos todo o tempo do mundo nos entristece ao mesmo passo em que nos motiva a viver. “Who wants to live forever?”
E se essa finitude (ao menos da condição humana atual) é tão necessária para que busquemos mais sentidos para viver, se ela é tão inerente a nosso estado de ser humano vivo, porque o tema nem sempre é abordado com mais naturalidade com as crianças?
Talvez seja porque, mesmo com a maturidade, este fato da vida não deixa de ser doloroso e delicado. Talvez seja uma tentativa de poupar nossas crianças de um sofrimento maior.
Mas, anos depois, um adulto pode pensar: porque não foram me contando aos poucos, na medida em que eu crescia, ao invés de me dizerem que aquela pessoa da minha família que morreu virou uma estrelinha no céu? Confundiram-me tanto para depois a vida me ensinar que, seja religioso ou ateu, ninguém vira uma estrelinha no céu. Ensinam-me uma mentira sobre a única certeza que terei em vida. Ao crescer, no entanto, foi possível perceber que a morte é bem mais triste do que eu imaginava, mas que, por algum motivo, eu preciso saber que o “fim” existe para dar mais valor à vida. Se tivessem me explicado sobre a morte aos pouquinhos, na medida em que eu crescia, não apenas sob a ótica religiosa, isso não destruiria meus sonhos, nem atrapalharia minha imaginação, nem tiraria o encanto dos contos de fada. Apenas me ajudaria a começar mais cedo e dentro das possibilidades do meu cérebro ainda infantil a viver um dos grandes dramas da vida: o de saber que um dia vou morrer e que mais triste do que isso é ter a possibilidade de perder alguém que amo. Ensinaram-me tanta coisa, mas não introduziram a morte de forma clara na minha vida. Apertavam minha bochecha toda vez que eu fazia um comentário criativo, demonstrando meu senso de imaginação sem limites, mas não me permitiram criar desde cedo minhas próprias versões sobre a morte. O assunto parecia apavorar ainda mais os adultos do que quando eu perguntava de onde vinham os bebês e, então, limitavam-se a me contar uma mentira, já que lhes parecia mais difícil explicar o pouco que sabiam ou imaginavam sobre a morte.
Tenha quais sentidos a vida para cada pessoa, eles parecem ganhar mais força porque se sabe da sua finitude. Se tenho despertada a vontade de viver “como se não houvesse amanhã” ou “viver cada dia como se fosse o último” e de dar tanto valor para a vida é porque sei que um dia vou morrer.
A morte passa, portanto, a ter um papel importantíssimo, sendo uma das criadoras do meu combustível vital. Independentemente da religião, na vida humana, ou ao menos nesta vida atual, ou ainda que nada mais aconteça depois que eu morrer, a morte deixa de ser o “fim da linha” para ser uma das grandes impulsionadoras de nossas trajetórias.
Seja qual for o sentido da nossa existência, mais uma vez o amor se mostra necessário como o grande fator inspirador da vida. E como o ser humano já é cheio de contradições, parece que teremos que viver com mais esta: amar a ideia da morte, por mais que ela nos traga sofrimento, pois ela nos ajuda a amar a vida!

O Palavra

- Menino, o que você quer ser quando crescer? Cientista? Professor?
- Não. Quero ser uma palavra.
- Ah, essas crianças têm uma imaginação...



Cresceu.

- Jovem, o que pretende fazer da sua vida?
- Quero descobrir quem sou. Tenho o desejo de quebrar regras, viver intensamente, lutar por um mundo melhor e experimentar diferentes sensações.
- Ah, esses jovens são tão rebeldes e idealistas!


Envelheceu.

- Senhor, realizou muita coisa em sua vida?
- Sim! Escrevi-me. Tornei-me um livro de aventura, cheio de “bang-bang” de sentimentos, de dramas que transformei em comédia, de emoções à flor da pele, de grandes descobertas e de personagens adoráveis que escolhi a dedo – e outras intrometidas que preferia ter apagado. Tudo começou com um sonho de criança: o de querer ser palavra. E sempre que pude – e até quando não devia – saí do papel.

Palavra Explodida

Quero ser a palavra triste, angustiada, gritada numa rua estreita e deserta.
A palavra cheia de mágoa que evapora antes de ser dita, sendo, portanto, desconhecida.
A palavra bonita que ecoa por todos os cantos. Os bons e os maus podem ouvi-la, se é que não são todos os mesmos.
A palavra manca que tomba e ri de si mesma.
E, mais do que tudo, quero ser a palavra sonhada que, de tão intensa, explode pó-de-palavra-viva na palavra dos outros.